Quando as dificuldades na escola escondem algo mais profundo: o papel do acompanhamento psicológico escolar na adolescência

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3/12/20266 min read

Já percebeu que a escola, quase como regra, constitui-se principalmente não como um espaço de aprendizado, mas como fonte de tensão familiar? O jovem evita falar em casa sobre provas e trabalhos, demonstra irritação ao tocar no assunto e parece exausto ou completamente indiferente. Muitas vezes, notas oscilam, e, por parte da escola, surgem advertências e queixas de desatenção. Em geral, esse comportamento costuma ser considerado fruto de desorganização ou preguiça. Mas, em muitos casos, o que se apresenta como dificuldade escolar é apenas o lado visível de algo que está acontecendo em um nível mais profundo, pois nem sempre o adolescente consegue traduzir seu sofrimento em palavras; o mais comum é que o “encene”, sendo a escola uma situação muito propícia a isso. Porém, fiquemos atentos: geralmente, tais sofrimentos não se manifestam exclusivamente no desempenho escolar. Há outras formas indiretas dele se manifestar, como ansiedade, dores físicas, irritação geral, ou até mesmo a recusa irredutível em frequentar a escola.

Esses comportamentos raramente surgem “do nada”. Como sabemos, a adolescência é uma travessia delicada: o indivíduo não é mais criança, mas ainda não se sustenta como adulto. Precisa reorganizar sua identidade, enfrentar transformações corporais intensas e redefinir sua posição na família e no grupo social. Passa a se confrontar com perguntas profundas sobre quem são e quem os outros esperam que eles se tornem. Aparecem então as dúvidas silenciosas, angustiantes: “Será que estou à altura do que esperam de mim? Será que vou conseguir construir um futuro?”.

Quando a mera cobrança por desempenho não alcança resultados

Paralelamente a isso, está sendo intensamente cobrado por desempenho, escolhas e resultados. Especialmente numa cidade como São Paulo, onde a competitividade acadêmica costuma ser elevada, essas pressões são ainda mais significativas, e nem todo adolescente consegue metabolizar essa exigência sem que algo em seu mundo interno se abale.

Ainda que hoje em dia haja na sociedade uma atenção especial, merecida, sobre as diferenças no funcionamento cognitivo e neurológico entre indivíduos, dificuldades escolares não surgem exclusivamente de fatores como o TDAH. Frequentemente, são expressão dos conflitos emocionais expostos acima: a ansiedade compromete a concentração, o medo de decepcionar gera bloqueios, sensações frustrantes de inadequação e insuficiência levam ao abandono das autoexpectativas e a um desinvestimento no empenho. Na verdade, esses fatores estão quase que invariavelmente associados aos quadros divergentes, agravando-os muito. Alguns paralisam-se diante da possibilidade de errar. Outros, para se defender da angústia, passam a desqualificar a escola, como se esta não tivesse importância, fosse um lugar “estúpido”: “Nunca vou usar nada disso!”.

Quando já se tentou inúmeras vezes aumentar a cobrança, sem que a questão tenha sido resolvida, é hora de investigar outros fatores, tentar, por meio de escuta, interesse e acolhimento, compreender o que aquele jovem está comunicando com sua dificuldade. Muitos temas podem (e certamente irão) surgir em terapia, como por exemplo, a inserção social, rivalidades em amizades, sensação de não-pertencimento ou conflitos com figuras de autoridade. Em outros casos, o sofrimento estará mais relacionado a uma cobrança interna intensa, que faz com que qualquer erro seja vivido como um fracasso insuportável. Propomos, portanto, perguntar com delicadeza: “o que essa queda no rendimento está comunicando sobre o jovem? O que mudou na vida dele? Houve alterações na dinâmica familiar? Conflitos ocultos? Mudanças no grupo de amigos? Experiências de exclusão ou humilhação?”. A escola, muitas vezes, torna-se o palco em que essas tensões internas ganham expressão ativa.

O acompanhamento escolar psicoterapêutico

Há situações em que a dificuldade escolar (que em si, como vimos, já é sintoma de algo mais profundo, da mesma forma que a febre é sintoma de um adoecimento subjacente), começa a afetar o sono, o humor, a autoestima e a vida social. Quando a escola deixa de ser um espaço de desafios e crescimento, e passa a ser fonte constante de sofrimento, é o momento de buscarmos ajuda especializada; não para rotular ou patologizar o jovem, mas para compreendê-lo. O acompanhamento psicoterapêutico permite que o adolescente desenvolva recursos internos para lidar com frustrações, reconheça seus medos e fortaleça sua autonomia. Ao mesmo tempo, oferece aos pais maior segurança sobre como sustentar esse processo.

O acompanhamento escolar psicoterapêutico de base psicanalítica não se confunde com um “reforço pedagógico”, pois busca a compreensão do sujeito em sua totalidade, oferecendo um espaço de escuta onde ele possa falar sobre suas angústias, sem expectativa de desempenho. É um trabalho que considera a rede na qual o jovem está inserido - família, escola, grupo social - e que, quando necessário, constrói a interlocução entre essas instâncias para reduzir ruídos e mal-entendidos. Envolve diferentes dimensões de cuidado, como:

- escutar as angústias do adolescente e de sua experiência na escola

- compreender as emoções e pensamentos/fantasias ligadas ao seu desempenho

- apresentar à família o momento emocional do jovem e estratégias de cuidado

- articular as conclusões com a coordenação da escola em questão

Quando o sofrimento encontra um espaço de escuta e elaboração, muitos adolescentes conseguem gradualmente reconstruir sua relação com os estudos. Não se trata apenas de melhorar notas, mas de recuperar algo mais profundo: a confiança em si mesmo e na própria capacidade de aprender.

Filhos relembram aos pais os sentimentos difíceis que tiveram na adolescência

Para os pais, o momento das dificuldades escolares costuma ser atravessado por preocupação, irritação, culpa e medo do futuro. Quando um adolescente sofre, a família frequentemente sofre junto. É compreensível. O desempenho escolar carrega, para muitos adultos, significados ligados à sua própria história. Às vezes, sem perceber, revive-se a própria adolescência diante das dificuldades do filho. O cuidado com o adolescente também implica olhar para os ecos que essa situação desperta nos adultos responsáveis.

Portanto, o acompanhamento psicológico é também um espaço de escuta para as famílias. A angústia reflete-se nas dúvidas sobre como agir. Não é incomum que se perguntem se deveriam cobrar mais, proteger mais ou simplesmente esperar que a fase passe. Mas a verdade é que cada adolescente atravessa esse período de maneira singular, não há um pequeno conjunto de atitudes e respostas que contemplem todos os casos. Buscar um espaço especializado, com escuta profissional individualizada, pode ajudar o jovem a compreender como lidar melhor com seus conflitos e medos, e ajudar os pais a compreenderem como oferecer apoio emocional adequado ao momento.

Clínicas que trabalham com psicoterapia para adolescentes e orientação familiar — como o Espaço Adolescer — costumam olhar para essas situações considerando não apenas o indivíduo, mas também as relações e ambientes que o cercam: família, escola, cursos e convívio social. Essa visão ampliada faz diferença na forma como as dificuldades são abordadas e encaminhadas.

Dificuldades são, na verdade, importantes oportunidades de crescimento

Em resumo, a adolescência não é uma linha reta, é um movimento de avanços e recuos, de experimentações e reorganizações. Dificuldades na escola podem fazer parte desse percurso, mas, quando persistem ou se intensificam, merecem atenção cuidadosa. Retomando a analogia acima, a febre, ainda que seja normalmente apenas um dos sintomas, pode, por si só, ter resultados muito prejudiciais e duradouros na saúde do paciente. Escutar o que está por trás do sintoma é um gesto de responsabilidade afetiva: o jovem precisa sentir que há adultos dispostos a compreender, e não apenas a cobrar.

Nem toda dificuldade escolar indica um problema grave. Dificuldades são inerentes à vida de todos, mas, o ponto importante, é que podem se tornar oportunidades de crescimento. Sem o atrito inevitável com as circunstâncias da vida, não teríamos como ampliar nosso autoconhecimento e nossa potência interior. Ou seja: dificuldades podem funcionar como um convite ao crescimento, e, quando superadas, abrir as portas para muitas outras tomadas de consciência em direção à maturidade. Perguntas simples podem abrir esses caminhos: "o que esse jovem está enfrentando neste momento da vida? Que pressões pode estar sentindo? Que outros fatores podem estar influenciando seu estado emocional?". Quando uma escuta cuidadosa e treinada entra em cena, muitas dessas experiências deixam de ser apenas um problema escolar e transformam-se numa oportunidade de amadurecimento.

Você não precisa atravessar isso sozinha/-o: se percebe que seu filho tem vivenciado a escola como um sofrimento recorrente, busque acompanhamento especializado. Este pode ser um passo importante para que essa travessia se torne menos solitária e mais gratificante, tanto para o adolescente quanto para a família.