Transtornos emocionais na adolescência: os significados de ansiedade, irritação e isolamento

Entenda como os transtornos emocionais na adolescência podem aparecer como ansiedade, irritação e isolamento e quando esses sinais indicam a necessidade de maior atenção.

8/20/20269 min read

Nem sempre o sofrimento de um adolescente se apresenta de uma maneira imediatamente reconhecível. Porém, sempre são perceptíveis os seus reflexos: os silêncios prolongados dentro do quarto, a impaciência diante de perguntas aparentemente simples, a dificuldade crescente de ir à escola ou a recusa em encontrar amigos. Mas há situações também em que o jovem continua realizando tudo o que se espera dele: estuda, frequenta compromissos, conversa e mantém uma rotina aparentemente organizada. Ainda assim, algo parece ter mudado: há mais tensão, menos espontaneidade e um cansaço constante, além de uma sensação de que qualquer pequena contrariedade pode provocar uma reação desproporcional.

É nesse território ambíguo que muitos pais começam a se perguntar se aquilo que estão observando pertence às transformações próprias da adolescência ou se pode indicar um sofrimento emocional desproporcional, que merece maior atenção.

E a dúvida é legítima. A adolescência é, por natureza, um período de reorganização psíquica intensa, em que o jovem precisa se despedir de partes importantes da infância ao mesmo tempo em que ainda não possui os recursos emocionais de um adulto. O corpo se modifica, a sexualidade ganha novas dimensões, o olhar dos outros se torna especialmente importante e a relação com os pais precisa ser transformada para que alguma autonomia possa surgir. Por isso, mudanças de humor, necessidade de privacidade, conflitos com os adultos e períodos de maior insegurança não podem ser automaticamente transformados em diagnóstico. Ao mesmo tempo, atribuir qualquer mudança inoportuna à conhecida expressão “é só uma fase” pode impedir que sinais importantes sejam levados a sério. É justamente entre esses dois extremos, o de patologizar o adolescer ou minimizar aquilo que o adolescente está vivendo, que uma escuta mais cuidadosa pode se tornar necessária.

Transtornos emocionais na adolescência: a dificuldade de distinguir entre transformação e sofrimento desproporcional

Os transtornos emocionais na adolescência raramente podem ser compreendidos a partir de um comportamento isolado. Um adolescente que passa uma tarde inteira no quarto não está necessariamente deprimido. Um jovem que se irrita com os pais não apresenta, por isso, algum transtorno. Ansiedade antes de uma prova, medo da rejeição ou vontade de permanecer sozinho durante algum tempo fazem parte da experiência humana e, especialmente nessa fase da vida, adquirem maior intensidade.

A questão começa a mudar quando determinados estados emocionais deixam de acompanhar situações específicas e passam a, progressivamente, organizar a vida do adolescente. A ansiedade, por exemplo, pode deixar de ser uma reação diante de algo importante para se transformar numa espécie de antecipação permanente de que alguma coisa dará errado. A irritação pode deixar de aparecer em conflitos pontuais para se tornar o modo predominante de contato com a família. O desejo de ficar sozinho pode deixar de funcionar como um espaço necessário de privacidade e começar a produzir um afastamento crescente dos vínculos, da escola e de atividades que antes despertavam interesse.

Talvez por isso seja mais produtivo para os pais observar não apenas o comportamento, mas a mudança de funcionamento:

Como esse adolescente estava alguns meses atrás? O que deixou de fazer? O que passou a exigir esforço excessivo? Há prazer em alguma parte da rotina? Existem vínculos nos quais ele ainda consegue se sentir confortável? O sono mudou? A escola tornou-se insuportável? Há um medo constante de fracassar ou decepcionar?

Perguntas como essas ajudam a deslocar o olhar da tentativa de encontrar rapidamente um rótulo para uma tentativa de compreender um possível conflito emocional mais complexo. Um adolescente que procrastina demais pode não estar simplesmente desinteressado. Talvez esteja tão tomado pelo medo de fracassar que iniciar uma tarefa se tornou emocionalmente ameaçador. Outro que reage agressivamente às perguntas dos pais pode estar tentando proteger uma região interna marcada por vergonha, inadequação ou medo. Um jovem que se afasta dos amigos pode desejar solidão, mas também pode estar convencido de que não é suficientemente interessante, bonito, inteligente ou desejável para permanecer próximo deles.

Ou seja, a pergunta clínica não é tanto “o que ele está fazendo?”, mas “o que esse comportamento pode estar tentando resolver, evitar ou tornar suportável?”.

Ansiedade, irritação e isolamento podem ocupar lugares diferentes

A ansiedade ocupa um lugar particular na adolescência porque essa etapa do desenvolvimento é constantemente “ameaçada” pelo desconhecido. Há um corpo novo a reconhecer, um novo posicionamento no mundo a ser descoberto, as relações ganham intensidade, as exigências escolares tornam-se cada vez maiores, surgem as escolhas relacionadas ao futuro e uma preocupação crescente com a maneira como se é visto. O adolescente tem a impressão de que está sendo permanentemente avaliado: pelos colegas, professores, pais e, de forma ainda mais severa, por ele próprio.

Em certas situações, essa ansiedade aparece de maneira evidente: preocupação excessiva, crises de choro, dificuldade para dormir ou medo intenso antes de acontecimentos específicos. Em outras, ela se esconde atrás do perfeccionismo, da necessidade de controle, da procrastinação ou de recusas: o jovem pode evitar uma festa porque teme não saber o que dizer, abandonar uma atividade porque acredita que não será bom o suficiente ou estudar durante horas sem conseguir experimentar a sensação de que está preparado.

A irritação também merece um olhar cuidadoso. Ela frequentemente produz reações penosas dentro de casa porque tende a provocar irritação também em quem a recebe. Estabelece-se um circuito em casa, no qual os pais já iniciam uma conversa esperando uma resposta hostil, enquanto o adolescente interpreta qualquer aproximação como uma possível cobrança. Pouco a pouco, ambos deixam de conversar sobre aquilo que realmente está acontecendo e passam a reagir ao modo como imaginam que o outro reagirá.

Compreender a irritabilidade não significa aceitar agressões nem abolir limites. Significa reconhecer que a raiva nem sempre é a última camada da experiência emocional. Por baixo dela podem existir medo, vergonha, frustração, sensação de fracasso ou tristeza; sentimentos que o adolescente ainda não consegue reconhecer como tais. Na clínica, a raiva é investigada em suas causas, em vez de ser simplesmente tratada como algo moralmente inadequado.

O isolamento exige um olhar semelhante. A necessidade de fechar a porta do quarto pode representar algo saudável: o adolescente está construindo um espaço de vida mais próprio, afastando-se do olhar dos pais e experimentando momentos de autonomia no convívio exclusivo consigo mesmo. Crescer também significa guardar pensamentos, conversas, desejos e dúvidas, e sentir que já não se compartilha tudo com a família.

Mas existe diferença entre procurar a solidão e tornar-se prisioneiro dela. Quando o adolescente interrompe progressivamente os encontros com amigos, abandona atividades que antes lhe davam prazer, começa a faltar à escola ou passa a viver quase exclusivamente dentro do quarto, é importante tentar compreender que função esse afastamento assumiu. Ele está escolhendo ficar sozinho ou já não consegue estar com os outros? A solidão o recompõe ou parece aprofundar um sofrimento? Ainda existem pessoas diante das quais consegue ser espontâneo? A resposta a essas perguntas pode revelar mais do que a simples quantidade de horas que permanece isolado.

Nos transtornos emocionais na adolescência, portanto, ansiedade, irritação e isolamento não devem ser compreendidos como sinais com significados fixos. Eles precisam ser lidos em terapia, dentro da história daquele jovem, do momento que atravessa e dos vínculos que o cercam. Dois adolescentes podem apresentar exatamente o mesmo comportamento por razões emocionalmente muito diferentes.

Contradições

Uma das experiências mais frustrantes para os pais ocorre quando percebem que algo não vai bem, perguntam ao filho o que está acontecendo e recebem apenas um “Nada!” como resposta.

A resposta pode parecer evasiva, mas nem sempre é. Para conseguir falar sobre um sofrimento, é necessário que alguma elaboração interna já tenha acontecido. É preciso reconhecer sensações, relacioná-las a acontecimentos, tolerar o que se sente e encontrar palavras capazes de representar aquela experiência. Durante a adolescência, esse trabalho psíquico está em pleno desenvolvimento. O jovem sente intensamente muito antes de conseguir nomear e admitir aquilo que sente.

Por isso, a ansiedade pode aparecer primeiro como dor de barriga. A tristeza pode ser percebida como irritação. A insegurança pode surgir como desprezo pelos outros. A necessidade de acolhimento pode coexistir com uma forte rejeição à aproximação dos pais. Essas contradições não são necessariamente sinais de manipulação ou incoerência. Elas fazem parte de uma etapa em que dependência e autonomia convivem de maneira tensa.

O adolescente deseja ser tratado como alguém capaz de fazer suas próprias escolhas, mas pode sentir medo quando percebe a responsabilidade implicada nelas. Quer que os pais estejam disponíveis, mas não quer sentir que sua intimidade está sendo invadida. Precisa do grupo extrafamiliar e, ao mesmo tempo, teme não encontrar lugar nele. Precisa se separar simbolicamente da família, embora continue profundamente dependente dela em muitos aspectos.

Esses movimentos podem ser desgastantes para todos. Pais podem sentir que deixaram de conhecer o próprio filho. O adolescente não necessariamente deixou de amar ou confiar nos pais; talvez esteja tentando descobrir de que maneira pode continuar ligado a eles sem permanecer no mesmo lugar infantil.

Uma dificuldade adicional surge quando a família interpreta todo afastamento como rejeição ou toda oposição como desrespeito. Quanto maior a ansiedade dos adultos diante das mudanças do filho, maior pode se tornar a tentativa de controlá-lo, e, quanto maior o controle, maior será a necessidade do adolescente de se afastar. Forma-se então um círculo no qual todos estão tentando preservar o vínculo, mas as estratégias utilizadas produzem justamente o contrário.

Observar não significa vigiar

Quando os pais suspeitam de sofrimento emocional, é natural que aumentem a atenção. Mas existe uma diferença importante entre acompanhar e vigiar.

A vigilância tenta descobrir tudo: lê mensagens, interroga, verifica cada movimento e procura sinais escondidos. Em casos graves, ou de risco, de fato, isso pode ser necessário. A observação cuidadosa funciona de outra maneira. Ela procura compreender alterações no conjunto da vida e mantém canais de comunicação disponíveis sem transformar qualquer comportamento em tema de investigação, sinalizando ao jovem, portanto, desconfiança.

Alguns critérios podem ajudar nesse olhar. A intensidade é um deles: aquela reação parece proporcional à situação ou passou a dominar completamente o dia-a-dia do adolescente? A duração também importa: estamos diante de alguns dias difíceis ou de um estado que se mantém durante semanas? É preciso observar, sobretudo, o prejuízo que começa a aparecer na vida cotidiana.

Os pais também não precisam ocupar o lugar de terapeutas dos filhos. Seu papel é outro. Justamente por isso, é indispensável seguir oferecendo presença, limites e reconhecimento. E buscar ajuda quando esses recursos já não parecem suficientes.

Há também situações em que a escola percebe algo antes da família. Um adolescente pode funcionar relativamente bem em determinado ambiente e demonstrar sofrimento intenso em outro. É por isso que a possibilidade de pensar num cuidado profissional em rede pode ser especialmente valiosa. O Espaço Adolescer trabalha com uma perspectiva em que diferentes participantes da vida do jovem, como família, escola e outros ambientes de convívio, podem ser incluídos, quando necessário e respeitando os limites clínicos, numa “rede de sustentação psíquico-emocional”. A clínica mantém reuniões de equipe e oferece orientação parental, justamente porque o sofrimento adolescente não acontece isolado dos vínculos nos quais vive.

Por outro lado, o sofrimento do adolescente frequentemente reativa nos pais lembranças penosas de sua própria juventude. Medos antigos, experiências de fracasso, abandonos, exigências familiares ou dificuldades que nunca foram suficientemente elaboradas podem reaparecer na relação com os filhos. Um pai pode exigir desempenho escolar porque teme que o adolescente atravesse as mesmas dificuldades que viveu. Uma mãe pode interpretar o isolamento do filho como rejeição, porque suas experiências anteriores tornam particularmente dolorosa qualquer distância emocional. Nada disso significa falta de amor. Significa apenas que nenhuma relação importante acontece fora da história de quem participa dela.

É justamente por isso que cuidar do adolescente pode implicar também oferecer aos pais um lugar onde possam se confrontar com suas angústias pessoais sem depositá-las sobre ele.

Quando buscar ajuda profissional

O Espaço Adolescer compreende que essa seja uma pergunta difícil.

Não é necessário esperar que uma situação se torne grave para iniciar uma terapia para adolescentes. Há, contudo, situações em que não convém esperar. Falas recorrentes sobre morte, desejo de desaparecer, autoagressão, ameaças ou tentativas de suicídio precisam ser consideradas, ainda que o adolescente diga depois que “não era nada”. Nessas circunstâncias, é necessária avaliação profissional rápida e, por vezes, atendimento de urgência.

Fora dessas situações emergenciais, a família ou tutores podem decidir oferecer ao adolescente a experiência de que seu sofrimento pode ser levado a sério. A tarefa não é impedir toda angústia; isso seria impossível, pois conflitos fazem parte do próprio crescimento. Mas encontrar, no vínculo com um terapeuta, um adulto capaz de permanecer interessado sem invadir e disponível sem julgar ou querer explicações imediatas, pode ser parte importante do caminho para que, aos poucos, aquilo que antes aparecia apenas como ansiedade, irritação ou isolamento encontre palavras e possa ser elaborado.


Caso se interesse mais sobre o tema, aqui vão algumas indicações de leitura:

  • Arminda Aberastury e Maurício Knobel — Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico.

  • Moses Laufer — Adolescent Breakdown and Beyond.

  • Nancy McWilliams — Diagnóstico Psicanalítico.